FERREIRA, Sueli. Imaginação e Linguagem no Desenho da Criança. São Paulo: Papirus, 1998.

O livro, cuja primeira edição data de 1998, é fruto de pesquisa de base etnográfica realizada com crianças de quatro, cinco e seis anos, de duas unidades da rede municipal de ensino de Junduaí, São Paulo.

Como professora de educação infantil e artista plástica, Ferreira estava interessada em discutir a interpretação dos desenhos das crianças. Depois de visitar os pressupostos teóricos de Luquet e Lowenfeld com suas fases de desenvolvimento gráfico, convida ao diálogo Méridieu. Para Méridieu, o desenho não é uma caminhada em direção à representação do real – está ligado ao prazer de manejar formas, cores e materiais. É, então, um processo de desgestualização progressiva: do gesto ao traço, do traço ao signo (tendo a figura do boneco como transição de um momento ao outro).

Ferreira apresenta os teóricos, mas sublinha a linha marcadamente maturacionista dos mesmos. Uma vez que os autores supracitados afirmam que “as crianças desenham o que sabem do objeto” (p.28), colocando os planos biológico e sociocultural numa perspectiva dialética, Ferreira busca, então, apoio em Vygotsky para abrir outros leques e discute mais detidamente a relação entre imaginação e conhecimento. Nesta perspectiva, a fala da criança ganha papel de destaque.

Baseada no conceito de Vygostsky que considera o desenho-de-memória como uma “narração gráfica”, Ferreira afirma que a criança atribui significado à figura e, pela palavra, interpreta o que faz (p.33), ou seja: “o desenho da criança, composto de figuração e imaginação, é uma atividade mental que reflete significação e, portanto, é dependente da palavra” (p.34). A realidade é interpretada pela criança no desenho, imaginando e fantasiando, elaborando modos de comunicação pela imagem – mas, neste percurso, a palavra é o signo essencial que faz emergir a figuração e explicita seus sentidos. Desta forma, conclui Ferreira, a figuração dá suporte à narrativa e esta dinamiza e significa os traços gráficos. Explicita, assim, dois tipos de significados nos desenhos: os objetivos – que independem da palavra e, portanto, são de compreensão restrita; e os subjetivos – que dependem da palavra do autor-desenhista. Sendo a fala, segundo Vygotsky, constituidora do pensamento, Ferreira utiliza-se deste preceito para explicar que, evoluindo da fala e o pensamento, a criança evolui sua atividade de desenhar. Assim, as figurações dos desenhos são indicadores de seus conhecimentos internalizados: “se a criança desenha o que conhece, a mesma trajetória complexa de constituição de conhecimento explicita a constituição do desenho” (p.52).

Maria Isabel Leite

 

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